Mulher em uma Síntese!

Cum_XSbWEAAZhnl

A forma feminina se deteve num estágio antigo de delicadeza física.  A forma masculina seguiu adiante deste estágio e se enrigeceu mais.  É por isto que a cabeça feminina é mais conectada ao Espírito do que a do homem.

(Rudolf Steiner, Hanover, 1910)

Por Ana Maria Silva – Verão de 2017

O feminino exige advérbios, substantivos, adjetivos em excesso. Afinal reluz e afeta-se na penumbra, tangencial, exponencial, interna e eternamente ao longo da onda do tempo desde sempre. Abraça em si, e efetivamente contribui na jornada dos seres que vêm chegando na terra. Com seu par, entrelaçada no masculino, perfaz o trajeto da estrada da vida. Afinal se constrói e se destrói para se perpetuar!

O feminino trança com o social, com a cultura, com o individual, com o coletivo. A natureza é o feminino reverberado ao máximo.  É a grande homenagem Divina ao feminino! É a grande homenagem à mulher.

Mas algo contundente, por algum motivo até então não desvendado totalmente, se interpôs na sacralidade da vida o atingindo pontualmente. A colheita de dados entre os milhares de pontos de vista que o denigrem é farta. Não seria se quer possível discorrer sobre todos. Mas o resultado da prática destes pontos de vista é in contest!

…Um médico e cientista francês do século XVI, Ambroise Parré, escreveu que “se os órgãos sexuais femininos são internos, isto se deve a que a imbecilidade de sua natureza não consiga expeli-los, colocando tais partes para fora, como no caso do homem”.

A mentalidade que eclodiu no século XVIII e que preconizou a usurpação da natureza dentro da lei do uso e abuso tornou o planeta a expressão viva da brutalidade, da violência do ser humano contra tudo e contra todos. Inserida neste contexto, a mulher foi violentada igualmente.

Ao longo dos séculos reprimiu-se fartamente o feminino e a história, através de milhares de fatos, assim o evidencia, colocando as mulheres na submissão, amordaçando e alimentando o embaraço no âmbito da sua individualidade, impedindo, por conseguinte, o desabrochar do ser verdadeiro que habita as suas entranhas e, por conseguinte do homem, que também algo se perdeu em de sua própria identidade. E desta forma o que se expressa em mulher, o feminino foi se distanciando da sua verdadeira essência, desaguando na comunidade global, a instância mais desrespeitosa em relação aos valores reais.

Concretamente ainda hoje existem culturas cujas mulheres são literalmente comercializadas, cujas crianças do sexo feminino são mortas por terem nascido…há outras culturas que já fingem respeitá-las e  há outras que despontam com o rastro ainda tímido da luta na direção de se transformar chumbo em ouro, recolocando a mulher no seu lugar devido e justo.

A época atual pede por cons-ciência. E nesta busca se situam os seres humanos: atavicamente, o feminino que adentra o masculino e o masculino que adentra o feminino. E nesta busca perene de encontrar-se em si e no outro, ambos caminham para o pleno, para o sentido de suas vidas, na medida exata que desabrocham suas consciências.

“Todo homem carrega dentro de si uma eterna imagem de mulher, que não é a imagem desta ou daquela mulher em particular, mas uma imagem feminina definida. Essa imagem é fundamentalmente inconsciente, fator hereditário de origem primordial, gravado no sistema orgânico vivo do homem, uma impressão ou um ‘arquétipo’ de todas as experiências antepassadas da mulher” Karl Jung

Na solidão do ser se vivencia o feminino e o masculino em si, como quiseram conceituar Jung, outros e os gregos, o ânimus e a anima, que carentes do despertar seguem acontecendo à medida que se caminha o caminho. O diálogo que clama por acontecer entre estas duas instâncias faz fecundar a alma da mulher e do homem gerando assim o novo. O novo que se abre para o desconhecido caminho rumo a si mesmo.

A mulher, à semelhança da terra, é sagrado leito para a igualmente sagrada semente que a fecunda e gera. Desenvolve, nasce e desabrocha. Em suas complexas entranhas a mulher vivencia o dialogar com o outro transformando-se em si num terceiro elemento à medida que se auto modifica para construir e destruir para o gerar. Quando não o faz por esta via, cria igualmente, fazendo-o movimentando o mundo, o seu mundo, o mundo dos outros. Caminha célere, vibrante sempre ardente e incendeia a várzea que se interpõe em seus passos. Abre espaços, fecha portas e prossegue escrevendo com todos a história de todos da vida na terra. Constrói, destrói, transforma e reverbera igualmente. Irradia, adormece, incandesce, transpõe montanhas, encara invernos, desafia as águas que lhes inundam os olhos por tantas vezes, sacramenta o calor que se lhe vem do ventre ao coração, desta feita o paridor!. É o Eu que lhe inunda o ser. E mesmo assim se descobre a cada passo, se auto perscruta em seus dramas em suas próprias lágrimas que regam seus caminhos e descaminhos fazendo-a mais forte perante Deus, que lhe faz parir a fé, a cor-agem para prosseguir.

Mulher é sempre Mulher! É a expressão do feminino arquetípico que lhe dita os passos.

Homem é sempre Homem! É a expressão do masculino arquetípico que também lhe dita os passos.

Ambos trazem em si os dois!

Cada qual com suas especificidades e peculiaridades seguem juntos – queiram ou não – caminhando nos talhos e atalhos da vida escrevendo com categoria ou não sua própria história.

A mulher traz descrito em si o livro da vida que para ser lido se carece de tempo, de dedicação, de desenvolvimento da honradez, da coragem de ser em si mesmo verdadeiro, passando pelo olhar atento e imprescindível do homem. Traz o rosto das sombras que ousam esconder às vezes seu sol, mas traz também a chave que destranca o caminho. E uma vez aberto deixa soar perene tal a relva, a desenvoltura necessária para dar rumo e equilíbrio à vida.

A mulher que acorda para a busca de sua individualidade – e este é o caminho de todas no seu ritmo e movimento –  pode romper com os padrões que lhes foram colocados sob grilhões e neste encontro frutificar em liberdade sua verdadeira missão: Ser a mulher que é de fato!


Meus agradecimentos à Dra. Iracema Benevides – Médica Presidente da Associação Brasileira de Medicina Antroposófica

Às suaves inspirações sopradas através da leitura de textos escritos pelo Dr. Wesley Aragão de Moraes e Dra. Gudrum Burkhard – nesta oportunidade!

Médica Ginecologista – Formação em Medicina AntroposóficaAna Maria Silva

Médica Ginecologista – Formação em Medicina Antroposófica

abmanacional

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *