A Rose da ABMA

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Por Paulo Neves Junior

1994. Ao sermos eleitos, me deparei com uma ABMA numa estrutura simples (uma sala), e uma secretária desmotivada e contando as horas para ser demitida. Não havia cursos regulares. Um mínimo de dinheiro em caixa. A nova diretoria começou com Sonia Setzer, Samir Rahme, José Roberto Lazzarini Neves e eu. Urgia contratar uma nova secretária e fomos atrás. O saudoso e admirável colega Gerardo Antonorsi Blanco havia me recomendado entrar em contato com alguém que lhe havia prestado serviços, segundo ele, uma “irmã de um amigo meu, uma coleriquinha muito boa de serviço”. Liguei para ela algumas vezes, insisti, expus a necessidade de contratação da ABMA, o que era necessário fazer e marcamos de encontrarmo-nos na sala da ABMA. Em uma manhã de sol, ela chegara antes e me aguardava. Aquela “senhora”, me ouvia dizer sobre o que fazer e me interrompia constantemente com frases do tipo: “Ah! Isso é fácil!”. “Pode deixar, isso eu sei!”. Tive uma péssima impressão… Minha antipatia foi intensa! Achei-a arrogante. Enguli meu julgamento, afinal de contas não havia outra candidata. A urgência se impunha com qualquer secretária nova que pudéssemos contratar. Disse-lhe então que eu tinha que sair e a deixaria sozinha por quase toda a manhã e que ela iniciasse com algumas ações. Prometera que no final da manhã estaria de volta. Ao voltar no final da manhã, a sala estava de pernas para o ar: outra surpresa… Perguntei para a Rose o que era aquilo: de bate-pronto ela me falou que o armário estava bagunçado e sujo e que ela estava limpando, classificando os papéis e colocando tudo em ordem. Ela estava fazendo bem além do que eu havia pedido! Foi a segunda forte impressão da manhã. Saí da primeira impressão negativa a respeito dela àquela que demonstrava algo que permearia os próximos anos: uma forte característica de iniciativa própria e senso de organização.

José Roberto tomou a decisão de sair da diretoria e passamos a planejar o próximo curso de Medicina Antroposófica. Havia na época um projeto de remodelação da formação, onde inclusive tinha uma proposta de currículo e conteúdo – já em 1993 – do qual o Gerardo auxiliou na configuração. Nossa grande dúvida é se teríamos público. Criamos coragem e colocamos no mundo: nascia o Primeiro Curso Básico. Tivemos um grande público e a estrutura curricular mostrou-se muito apropriada. A Rose progressivamente despontava e dava conta do recado operacional com grande zelo. Em um caminho natural ela passou a participar das reuniões da diretoria e isso revelou-se outro grande acerto: as decisões eram rapidamente implantadas e eu fazia o meio de campo operacional, entre a diretoria e as ações da Rose, entre a comunidade de médicos e os demais do meio antroposófico. Ganhamos rapidez e eficiência. Felizes tempos aqueles em que calhou a grande experiência da Sonia e do Samir, com a raça da Rose e a minha jovialidade revestida de fazer ver as coisas acontecerem, mudarem, crescerem. Éramos um quarteto afinado. Para se ter uma idéia, por não termos um local próprio de cursos, fizemos o primeiro Curso Básico, que durava um ano e meio, em sete lugares diferentes! Carregávamos no carro da Rose, todo o material de apoio dos cursos. Foi ela quem digitou e revisou o português (para quem não tinha formação superior), das apostilas da época. Muitas dessas que continuam à venda. Em 1994, a ABMA enfim despontou para o Brasil, essa foi a resultante. Um novo momento da Medicina Antroposófica surgiu. Com o certeiro Curso Básico estruturamos a primeira Formação Médica que a meu ver revelou um grau maior na linha didática. E virou a referência a para a expansão em outras cidades.

Com a expansão e ascensão dos cursos, nos capitalizamos e pudemos alugar uma casa e construir uma sala de aula. Essas coisas eram todas gerenciadas, com a mão da Rose. Nos congressos da época lá estava ela cuidando da secretaria. Ela tinha um imenso senso de responsabilidade: a confiável faz-tudo que vestira a camisa da ABMA. O tempo ia passando e minha admiração crescendo. A medicina antroposófica crescendo e ela oferecendo a garantia de que haveria uma linha de continuidade, de segurança. É preciso tornar isso público: se não existisse a Rose, seu suor e sangue, o patamar em que a Medicina Antroposófica está no Brasil no momento, não seria o mesmo.

Nossa interação foi se incrementando e por uma linha natural surgiu uma intensa amizade, de confidências e sinceridade nas críticas mútuas. Nada mais natural que em determinado momento eu a convidasse para ser madrinha de minha primeira filha. Além das virtudes citadas era de uma honestidade absoluta. De inteira retidão, todo o dinheiro, controle e encaminhamento financeiro da época passava pelas mãos dela. Nunca ocorreu quaisquer problemas. O grau de confiança era tanto que a Sonia deixava cheques assinados em branco em suas mãos. A Sonia exerceu a confiança. A Rose se sentia engrandecida por esse gesto. Uma atitude da Sonia iluminando uma pessoa especial e que se sentia grata por isso.

A “coleriquinha” ia da seriedade de seus cuidados de leoa às constantes gargalhadas, palavrões, sinceridade, seu jeito direto de ser. Quantas pessoas não lhe abriram o coração? Ela era muito receptiva a isso, era um bom ouvido.

2017.Após alguns anos de sua demissão, aposentada, doente, em situação financeira delicada, acordamos que buscaria auxílio em Ribeirão Preto: ela estava se tratando no SUS em Santos e estava tudo moroso. Com infecções urinárias de repetição (e outros antecedentes), desde setembro de 2016, com vários antibióticos na história, trouxe-a de carro de São Paulo no dia 16 de março. Comecei a buscar uma Cistoscopia e estávamos aguardando. Ela estava com dor abdominal contínua e bastante desgastada pelas noites mal dormidas por ter que ir ao banheiro com frequência. Um dia me relatou que passara muito bem: o afastamento do sósia? No outro dia disse-me que tivera uma noite péssima: teve pesadelos com a temática da morte, em que seu pai (já falecido) era conduzido por cadeira de rodas ao cemitério mas esse percurso estava sendo atrapalhado: me reclamou de muito mal-estar e salvas de taquicardia. Que foi se remitindo depois.

O inesperado veio e ela faleceu no dia 25 de março, dormindo. Tramas do destino: 22 anos de amizade, morrer na minha casa, no seio da minha família. Três setênios completos. Para o mundo espiritual foi a minha irmã de São Paulo com 63 anos, que deu sua alma para a Medicina Antroposófica no Brasil e apesar da presença de seu corpo, alma e espírito em diversos cursos, pouco se ligava à Antroposofia. Porque? Porque ela ajudou tanto? Saberei quando a encontrá-la quando for a minha hora. Sou afortunado de ter convivido com uma imensa mulher: um pacote de virtudes, uma gigante. A imagem dela me traz respeito e admiração. E eu pude usufruir disso. Assim como aqueles que tiveram também essa oportunidade.

Ribeirão Preto, 26 de março de 2017. 12:34h

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Rosely Alves nasceu em 18.01.1954, tendo completado 63 anos em sua biografia


Dr. Paulo Neves Junior (1)Dr. Paulo Neves Junior é Clínico Geral, especializado em Reumatologia e possui formação em Medicina Antroposófica. Vive e atua em Ribeirão Preto (SP). Foi membro das Diretorias da ABMA e participou da gestão entre 1993 a 1999.

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